quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

ARTE E LOUCURA


A atenção conferida à arte produzida por portadores de anomalias psíquicas ganha âmbito mundial quando em 1933 o artista plástico Flávio de Carvalho propõe ao público um contato direto com tal material, organizando uma exposição onde desenhos de crianças e doentes mentais tomavam o espaço da galeria, no quadro das manifestações polêmicas do Clube dos Artista Modernos, em São Paulo. O ato do brasileiro antecipa a posterior campanha de Debuffet em prol da "arte bruta", quando este afirma a importância psicológica e filosófica dessa manifestação ao se opôr à doutrina da Escola de Belas Artes que procurava impor aos alunos uma personalidade artística pré-concebida. Iniciadas em 1945, as coleções de Art Brut são constituídas por obras de pessoas estranhas ao ambiente cultural e resguardadas de suas influências. Para Victor Musgrave, o conceito de Art Brut foi criado "em oposição à estrutura hierárquica do mundo artístico, que é mantida por um sistema educacional abortivo, uma conspiração entre artistas e críticos, intermediários e compradores, e uma falsa santidade em museus e galerias". Antes disso, ainda em 1934, Osório César publica o livro “A arte nos loucos e Vanguardistas”, no qual faz uma comparação entre as duas estéticas, a dos loucos e a dos artistas modernos. Em 1952, Nise da Silveira (doutora em psiquiatria) funda o Museu de Imagens do Inconsciente, um centro de estudo e de pesquisa que reúne obras produzidas por deficientes mentais, nos ateliês de pintura e modelagem. Com tudo, Dr. Nize pondera “aqui não existem artistas, mas pessoas que expressam seu mundo interno. A estética não é incompatível com a ciências, e se algum dos pacientes for considerado artista, ótimo". Segundo Freud “o escritor reajusta seu mundo de uma nova maneira, que lhe agrade e portanto é capaz de criar um mundo próprio.” Creio podermos aplicar este pensamento à qualquer área da criação artística. Um artista pode ser louco mas nem todo louco é artista. Extraído do catálogo Flávio de Cavalho: 100 anos de um revolucionário româtico, segue um comentário "o espírito médio deixa, portanto, de lado a única arte que contém valores artísticos profundos: a ARTE ANORMAL, bem a arte sub-normal, as únicas que prestam porque contém o que o homem possui de demoníaco, mórbido e sublime, contém o que há de raro, burlesco, chistoso e filósofo no pensamento, alguma coisa da essência da vida." Já na década de 90, comparado à Marcel Duchamp, Arthur Bispo do Rosário (ex marinheiro e interno por meio século da colônia Juliano Moreira, o maior e mais antigo manicômio do Rio de Janeiro) é tido como gênio ao expôr sua obra na Bienal de Veneza. Da sucata e do lixo, Bispo produzia uma série de trabalhos que apenas pretendiam marcar a passagem de Deus na terra. Em 1938 presenciou a chegada de um luminoso cortejo de anjos e soldados celestes, trazendo uma mensagem de Deus: “reconstrua o universo e registre a minha passagem aqui na terra”. Sob ordens divinas, Bispo vai para uma igreja, onde se apresenta como aquele que julgaria vivos e mortos. O fato é que após esse episódio, o visionário começa sua peregrinação por clinicas e hospícios, até chegar à Juliano Moreira. Esquizofrenia Parenóide era seu diagnóstico, o submetendo ao desumano tratamento de eletrochoque. Os registros artísticos aparecem na forma de estandartes, murais, bordados e outras peças feitas a partir de panos velhos e materias extraídos do lixo. Na verdade, todos esbajavam uma variedade de cores, detalhes, escritos e temas. Entre os muitos detalhes impressos ali, estavam elementos da religiosidade popular, da coroação dos Reis Negros, do Reisado, da Chegança e do artesanato, que está muito presente através dos trançados e das técnicas de bordado que ele usava principalmente escrevendo em alto-relevo. Bispo chegou a bordar um manto rico em ornamentos e de um juízo estético impecável. Dizia que o traje seria sua vestimenta para o tão esperado encontro com Deus. Arthur já percebia que seus estandartes e bordados chamavam a atenção das pessoas, mas não teve tempo de conferir sua consagração como artista. Na noite de 5 de julho de 1989, provável data em que completara 80 anos, ele encerrou seu longo retiro preparatório e foi se apresentar a Deus, objetivo que acalentara por toda sua vida. Bispo queria ser enterrado com seu manto, nobre direito que lhe foi negado. A questão seria, enquanto artista, o deficiente mental teria condições de conscientizar sua produção a ponto de conferir atributos artísticos à sua expressão? Interessante pensar que Bispo entitulava cada peça, inserindo assim um conceito de ordem filosófica ao objeto (atributo muito utilizado na arte pós modernista realizada em sua contemporaneidade). Não seria essa, uma intenção consciente de valorizar um conjunto de signos previamente organizados, lhes conferindo um juízo não só estético, como de caráter social e filosófico? Assim como evidenciamos tais precedentes ao materializarmos nossas intenções artísiticas, salvos de distúrbios psíquicos? Seria necessária a comprovação de sua sanidade mental enquanto produtor de imagens e propositor de idéias? Uma última pergunta problematiza a finalidade do post: o que se é preciso para que um trabalho seja considerado arte?

Um comentário:

Pedro disse...

velho, acho que o que se precisa para um trabalho ser considerado arte são duas coisas: primeiro acreditar mesmo ser necessário um atributo x ou y para algo ser arte. segundo que esses tais atributos x ou y sejam encontrados, desprezando as outras infinitas variávies (o que pode ser uma atitude prepotente). no fundo, talvez não haja uma resposta, ao certo. nem todo artista é louco, assim como nem todo louco é artista. mas um artista, ou todos os artistas, podem ser loucos, assim como um louco, ou todos os loucos, podem ser artistas. a linha é muito tênue. e pode ser perda de tempo ficar devagando sobre isso. são rótulos e rótulos. mais valhe produzir e/ou apreciar trabalhos. muito mais agradável e importante.